sexta-feira, 11 de março de 2011

O resultado do medo - Um conto de Alisson Nogueira.


Delicadeza sua pensar que sou tão amável o quanto poderia achar que fosse. Pensava que nunca fosse capaz de fazer tal absurdo. Achei que não fosse capaz. Até que ponto pôde por meu sentimento à prova? Até onde posso dizer eu te amo? Até onde posso fazer de meu amor a justificativa de meus erros?
Hoje depois de preso é que reflito sobre essas coisas, enquanto era tempo de refletir, passava por cima dos assuntos como se de nada me valessem. Mas caso tivesse refletido, minha vida, minhas decisões teriam sido outras. Não adianta “chorar o leite derramado”, me dizem sempre, mas o que posso fazer? O rumo que a minha vida tomou foi graças àquela decisão.
Foi a duas semanas atrás quando minha namorada e eu tomávamos um chá a beira da lagoa, Uma linda lagoa localizada na Praça Simpatia da cidade Osraiosdesol. Tomávamos um belo e gostoso chá de erva doce. Deleitávamos com um sabor e aroma tão bons! Vivíamos nossa alucinante vontade de amar. Beijávamos-nos com tanto amor que as pessoas que por ali passavam viam-nos, e possivelmente sentiam a felicidade estonteante que emanávamos.
Sempre pensei que quanto mais fazemos o bem, mais bem nos seria retribuído, mas hoje custo a acreditar nisso. Minha vida mudou, não sei como nem por que. Procuro justificativas, inutilmente, pois tenho convicção que possivelmente não haverá motivos, explicações que sanem a ferida que se encontra no mais profundo de meu peito e de minha alma.
Um homem. Uma necessidade? Talvez. Até onde a necessidade pode nos fazer negar o direito de outro? Até onde o meu direito pode ser sobrepujado ao do outro individuo?
Um homem chegou naquele encontro tão amável e estonteante, com uma mulher tão elegante e maravilhosa. Uma alma desconhecida. Uma pessoa de aparência repugnante, um homem que não parecia um homem. Arrependo-me diariamente de não ter prestado atenção no que realmente vale a pena nas pessoas, aprendi na marra, o que é ser Humano.
Um homem mal vestido invadia o meu momento de amor. Um homem que me amedrontou tanto que não saberia se era um homem honesto ou um bandido. Conceituei-o como um assaltante, um marginalizado da sociedade, chamei-o de delinqüente. Pre-conceituei-o  sem ao menos deixá-lo dizer o porque dele estar naquele momento ali, com pessoas estranhas à sua frente. Um homem com uma aparência repugnante e sujo. Mas um homem. Um sentimento? Medo.
Como o medo pode nos obrigar a agir sem pensar? O bicho Homem tem um instinto diante do medo? Aquela situação me incomodou. O homem que ali estava precisava de minha ajuda e não de meu desprezo. Hoje vejo dessa forma, mas naquele momento minha alma já não existia, meu coração encontrava-se acelerado, mas não pelo sentimento que antes pairava no ar, mas pelo medo que agora habitava minha mente.
A adrenalina passou a percorrer com cada vez mais fervor as minhas veias, minha mente já não raciocinava racionalmente, meu corpo passou a ser controlado não pelo meu cérebro, mas por algo que transcendia a minha racionalidade. Meu corpo transformou-se no medo.
Hoje paro para pensar por que agi daquela forma, sendo que o homem que ali estava nada havia dito. Apenas chegara naquele ambiente sem ao menos mencionar uma palavra. Os pensamentos processados em minha mente não respeitavam o tempo que deveria esperar para que minhas decisões fossem assimiladas. Eu era um policial e por força do hábito, costumava andar armado.
Naquele momento em que o medo tomou conta de meu ser, em que senti que minha vida estava em perigo, perdi a minha vida. Perdi parte de minha alma, perdi a mulher que eu amo e pedi a minha liberdade. Perdi muito, você acha? Mas nada é tão valioso quanto a vida de alguém. Eu matei aquele homem.
Um homem que nada havia me feito que nada houvéssemos falado que estava, simplesmente, parado em minha frente com suas mãos para trás, como se estivesse esperando algo. Tirei a vida de um ser humano. Tirei-lhe a vida e em troca perdi minha alma, minha vontade de viver esvaiu-se com aquela graça que havia sido concedida àquele homem, como a todos os homens. A graça da VIDA.
Estado de choque. Fui preso, entreguei-me. Não poderia me esconder dos resultados de minhas decisões. Enfrentei com garra aquela decisão que tomei e que teve um fim trágico.
O homem que perdeu a vida pelas minhas mãos era alguém especial. Era alguém que não via a muito, muito tempo. Era um homem que jamais houve outro. Era um amigo, um amigo que me disse elogios quando não precisava, que me repreendeu quando era preciso, que foi embora mas não deixou de ser importante, que passou necessidades, mas não deixou de ser humano.
Quando aquele homem caiu no chão, um papel voou, um papel pequeno aparentando uma idade avançada. Me vi em estado de choque. Nunca havia atirado em uma pessoa por medo.
A minha companheira naquele momento não soube o que fazer, o nosso amor tornou-se horror. Sua reação foi de tentar socorrer aquele que naquele momento necessitava de auxilio, ela correu para ajudá-lo. E para sua surpresa aquele não poderia ser um desconhecido, pois este tinha algo em suas mãos que um desconhecido não teria.
O papel que voara de sua mão não era um bilhete, era uma fotografia. Uma fotografia antiga. Naquela fotografia encontrava-se a imagem de um garotinho. Quando a minha namorada pegou aquela fotografia e me mostrou, um filme passou em minha mente. O passado passava como se fizesse parte do presente, como se os tempos não respondessem a sua ordem natural.
Vinham em minha mente as imagens de meu pai indo embora de casa após a separação de minha mãe, vi seu sofrimento estampado no rosto. Lembrava-me do momento em que ele me dizia que jamais me esqueceria e que um dia voltaria para que nos víssemos pelo menos uma vez antes de sua morte.
Apenas uma pessoa tinha aquela foto, apenas uma pessoa possuía a minha imagem daquela idade. O homem estendido no chão era o meu pai. O homem que por tanto tempo cuidou de mim, que me amou e que me prometeu voltar antes de sua morte. O homem que estava naquele momento estendido no chão foi o que me disse por tantas vezes “Eu te amo”. Aquele que tinha em sua face as expressões de sofrimento que a vida havia lhe causado era o meu. E aquele que estava com a arma do crime nas mãos era o seu filho que tanto sentia a sua falta.
Porque o meu medo me fez vitima de minhas decisões? Por que a minha vida esvaiu-se com as conseqüências de meus medos? Por que o meu pai?
Diariamente vivo metade de mim. A outra metade se foi, e o vazio foi preenchido com lagrimas que são derramadas todas as noites silenciosamente em meu leito de prisão, do qual não pretendo sair.
Viver? Sim, viver é para aqueles que têm consciência de que sua vida é apenas o inicio da morte e não fazem da morte o seu único objetivo, pois este temos certeza da conquista. 

Um comentário:

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